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sábado, 23 de agosto de 2025

Expedição Transamazônica 7 - Agora sim: BR 230, lá vamos nós!!! Percorrendo o trecho Amazonas

 

Cachoeira de Apuí

Depois de 2 meses e 5830km, finalmente chegamos ao nosso projeto: Transamazônica – BR 230!!! Este nosso “preâmbulo” foi muito bacana e descobrimos lugares diferentes em nosso país e que valem a visita! Mas agora, sim!! Agora os próximos km (muitos) serão percorridos na estrada famosa, mítica, controversa e aventura pura no coração da Floresta Amazônica!

Humaitá: “mbaitá”, do tupi = pequeno papagaio, mas aqui o nome faz referência a uma das batalhas que o Brasil travou durante a Guerra do Paraguai, no Forte Humaitá

Nosso ponto de saída foi Humaitá, mas a estrada original vai até Lábrea, distante 220km daqui. Não vimos sentindo neste momento em percorrer 500km (ida e volta) apenas para dizer que “estivemos no fim da Transamazônica”! [Este destino ficará para a próxima incursão a Manaus (a Transamazônica se funde por uns 55 km com a BR319 entre Humaitá e a bifurcação para Lábrea)]

UM POUCO DE HISTÓRIA



A história da abertura da Transamazônica é controversa, pois para a maioria da população ela foi aberta pelos militares, durante seu governo, a partir dos anos 1970. Em parte, isto é verdade! Muitos trechos da rodovia já existiam e eram usados para o escoamento da borracha e outros produtos (madeira, por ex.) desde a colonização da região Norte. Nesta época (estamos falando do séc. XVII), as incursões se davam pelo Rio Amazonas e subindo os seus afluentes (Tapajós, Purus, Madeira, Xingu...) e dali, por caminhos indígenas pela mata, que se tornaram as estradas que ligam as vilazinhas e cidades.


A proposta do governo militar era fazer a integração do norte/nordeste do país através da estrada que ligaria todas as pequenas estradinhas já existentes, passando por 7 estados e ligando 63 cidades. O projeto traria desenvolvimento e acesso aos recursos lá existentes, além de garantir a ocupação ordenada dos espaços.


Foi Emílio Médici, general, que idealizou e assinou o decreto de construção da Transamazônica, criando o PIN – Programa de Integração Nacional, e o primeiro trecho foi inaugurado em 1970, ligando Altamira, no Pará, ao Estreito, no Maranhão.


- Os trabalhadores que realizaram esta obra eram, na maioria. Nordestinos. “(...) a construção da rodovia eram a redenção econômica com o Nordeste, em união com os problemas sociais causados pelas secas sazonais no sertão nordestino, e um ‘pontapé’ para a integração da Amazônia que, naquele ano, era considerada um “deserto demográfico”.” (portalamazonia.com)

- O projeto inicial era unir os Oceanos Atlântico e Pacífico, com uma estrada com mais de 8000km, atravessando toda a América do Sul de leste a oeste. Ela deveria unir Cabedelo – PB a Tabatinga – AM. (Tabatinga até hoje só é alcançada via Rio Amazonas, de barco (navio-motor) e leva, aproximadamente, uma semana para chegar lá, saindo de Manaus)

Humaitá

Catedral Diocesana de N. Sra. da Conceição (1889) e Praça da Matriz

Como em Humaitá há civilização (rsrsrsr), aproveitamos para abastecer, fazer umas compras e passeamos pela cidade, revendo lugares já visitados há dois anos (quando estávamos indo para Manaus pela BR 319). Para mais informações, segue o link:

V i a g e m F a m í l i a: A Amazônia é incrível, gigante e surpreendente!! (RO e AM)

O leito do Rio Mamoré continua barrento e nas suas margens, as inúmeras balsas/flutuantes com garimpo atuando...

Flutuantes de garimpo nas margens do Rio Madeira

Faço aqui um parêntese. Nos quase 750km de MT 208, no trecho não-pavimentado da estrada que compreende os municípios de Colniza, Cotriguaçu, etc a presença da Guarda Nacional foi constante e as operações realizadas junto da Polícia Federal estavam deixando toda a população em polvorosa... na época da seca estas fiscalizações ocorrem tanto para conter o garimpo ilegal, quanto o desmatamento da área. É aquele tipo de operação “tapa buraco” que só ocorre para justificar os números e apaziguar os “ambientalistas de plantão”, uma vez que a cada balsa queimada ou área interditada, se sucedem outras 10 que ficarão a cargo de algum figurão ou narcotraficante (PCC e /ou CV) que irá legalizar a área. Enfim... as políticas públicas não alcançam este Brasil tão grande e desconhecido! Fecho o parêntese.

Humaitá, também carinhosamente apelidada de “Princesinha do Madeira”, está com mais de 57 mil habitantes (IBGE2022). Sua posição estratégica, na confluência da BR230 e BR319, a torna importante dentro do cenário econômico.


Casario antigo preservado

Fundada em 1869, durante o Ciclo da Borracha, já teve presença do homem branco nos idos de 1693, quando uma missão jesuítica se fez presente nestas paragens. Assim como outras cidades de nosso país, sua fundação está relacionada à exploração e busca de riqueza.

Habitada anteriormente pelos indígenas das etnias Parintitins, Pirahãs e Muras, hoje têm a maior parte da população parda (62%), demonstrando a miscigenação do branco e do preto com o índio.

A Hidrovia do Madeira é atualmente a mais importante do país e movimenta toneladas de grãos que são transportadas em barcaças descendo o rio, que é afluente do Amazonas. Vimos uma subindo o rio quando estávamos na balsa que atravessa o rio Madeira.

 

Após um pernoite em posto de combustível (sempre eles, com duchas maravilhosas e banheiro limpinho!) com algum barulho, pois a “cultura” das caixas de som e música alta é implacável, seguimos até a margem do Rio Madeira, a espera da balsa que opera a travessia.




Curiosidade: a balsa opera no sentido Humaitá – Apuí nas horas pares e no sentido inverso, nas horas ímpares.


Enquanto esperávamos nosso transporte, ouvimos histórias de locais e observamos o trator rebocando uma carreta bitrem para fora da balsa.




Este primeiro trecho da rodovia está em bom estado e passamos por dezenas de igarapés e rios. Paramos no Rio Maici (km52) para um banho e relaxar... o calor está grande (35°C) e a água estava convidativa!! Só não acampamos por aqui, pois ainda era cedo!

Rio Maici

- Rio Maici é afluente do Rio dos Marmelos e nos seus mais de 500km de extensão, atravessa a Floresta Nacional de Humaitá, e é a principal fonte de alimento dos indígenas da etnia Pirahã, de aproximadamente 900 pessoas, que continuam seminômades, vivendo da extração e coleta da castanha, da copaíba e mel, com idioma único e sem vocabulário para passado ou futuro, nem nomes de cores, ou contagens.



Como a rodovia não é pavimentada, as placas de sinalização são ocasionais e as localidades são medidas por km. Por ex.: a localidade de Santo Antônio do Matupi também é chamada de km180!


- Sto. Antônio de Matupi é distrito de Manicoré e conta com aproximadamente 10mil habitantes. Área de tensão fundiária e invasões. Curiosidade: a localidade é produtora de laticínios, incluindo marca de manteiga!

Aldeia indígena da atualidade

As áreas indígenas (aldeias) que ficam às margens da rodovia receberam estrutura básica, com instalação de placas solares, Starlink, poços artesianos e banheiros coletivos novos, além de escola e posto de saúde, o que trouxe mais comodidade, conforto e infraestrutura para os povos tradicionais. Detalhe: muitos igarapés estão contaminados em função do garimpo. Como estes povos ancestrais (e também os homens brancos) dependiam de suas águas para tudo, houve a necessidade de se criar esta estrutura básica para que eles se mantivessem em seus locais de origem.

Rio Aripuanã

Voltamos a encontrar o Rio Roosevelt, agora já junto com o Rio Aripuanã (sua confluência se deu 500m acima da balsa) e após a travessia, paramos para acampar num local sombreado e com apoio. A lanchonete da Priscila oferece ducha e banheiro para os viajantes. O lugar é simples, mas limpo. Dormimos em companhia de galinhas e galos, que cantavam de hora em hora!


- Rio Aripuanã, conhecido como “Rio das Pedras” possui mais de 1000 km de extensão. Já cruzamos seu leito acima (ao sul), na MT208

Curiosidade: como em muitos negócios por aqui, a lanchonete é comandada por mulheres! A mãe, a vó, a filha, a prima... todas organizadas e focadas em seu negócio. Se existem homens na família, devem estar no garimpo ou no Sul! A estrutura familiar básica é a matriarcal! 


Apuí

 

A 110km, Apuí é uma cidade com estrutura, asfalto, mas custo de vida alto, pois tudo que chega aqui é caro! (na época da seca, os alimentos e combustível chegam pela estrada e na época de chuva, o que chega vem pelos rios ou ?.. não chega)

Aqui conhecemos a Cachoeira de Apuí. No Balneário, distante uns 5 km da cidade, tomamos um gostoso banho e curtimos um pouco o silêncio. Uma vez que era segunda-feira, não tinha ninguém, apenas os funcionários fazendo a limpeza (o lixo deixado pelos usuários do domingo foi grande!). A entrada é gratuita, porém não se permite a entrada de bebidas ou comidas no local. Existe um restaurante no local para atender os visitantes.


Apuí possui aproximadamente 23 mil habitantes e foi fundada a partir do Projeto de Assentamento Rio Juma, em 1982. A base econômica da região é baseada na agropecuária, destacando-se a cultura do café (robusta). Apuí, no tupi, significa “braço forte” e provém de uma árvore amazônica muito abundante (apuizeiro).

Desenhos interessantes nas pedras

O município possui área maior que alguns países europeus e maior que alguns estados da federação, fazendo divisa com o MT e o PA. Curiosidade: aqui também o índice de mães adolescentes beira a 30% da população de nascidos – realidade verificada em todos os municípios desta região.

Igreja Matriz São Sebastião, Apuí

Marca de guaraná Tuchaua ("cacique") dos bois Garantido e Caprichoso

Aproveitamos para nos abastecer de carne e pão e seguimos em frente, desta vez em estrada não pavimentada em ótimo estado de conservação (velocidade de até 80km/h!) – resultado das obras de infraestrutura que ocorrem todos os anos nesta época de seca!! [A indústria da seca funcionando...]

Colhendo cajus... delícia!!

Igarapé com seus buritis

Mais uma balsa, agora sobre o Rio Sucunduri, e uma parada estratégica para apertar uns parafusos do peito de aço que afrouxaram...  100km adiante e chegamos ao Igarapé Água Branca, simplesmente lindo!!!

Rio Sucunduri

Igarapé Água Branca, na Transamazônica... um deleite!! 

Com local sombreado e plano, aproveitamos para fazer nosso almojanta, tomar banho e relaxar! Amanhã, daqui a 55km, chegamos ao estado do Pará!

Área sombreada e águas cristalinas




Mas esta aventura vai ficar pra próxima postagem!!!



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