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sexta-feira, 14 de abril de 2017

Huaráz - Cordilheira Blanca - Chavin de Huantar - Peru - Etapa 4

 

    Chegar a um destino pré-traçado e planejado é muito bom, principalmente quando pelo caminho tantas belezas e atrações puderam ser admiradas. Até aqui 14 dias e 6.548 km rodados por todo tipo de estrada e clima.O planejamento inicial dessa viagem foi baseado numa planilha que fizemos tomando por base um tempo utilizável de 30 dias. Sempre pode acontecer algum imprevisto então executar o plano exatamente como foi concebido nunca acontece em viagens com grandes deslocamentos como essa.
     Só para exemplificar, no planejamento teórico inicial realizado com mapas e internet, calculávamos até aqui percorrer algo em torno de 6.000 km. Apesar de não termos cumprido o trajeto conforme pré-estabelecido, a distância percorrida aproximou-se do inicialmente previsto pois precisamos adaptar o roteiro à quantidade de dias ainda disponíveis fazendo um cálculo aproximado para voltar quando atingirmos a metade dos dias programados. Queríamos seguir até o Equador mas aqui em Huaráz fizemos a decisão acertada de cortar essa parte que nos exigiria pelo menos mais 10 dias livres, fato que inviabilizaria o retorno com maior tranquilidade.
 
Centro de Huaráz

Mural do Luigi's Pizza com recado do Viagem Família acima.
     Como chegamos a Huaráz já com a noite então nossa primeira preocupação foi achar um hotel, e a segunda, claro, encontrar um bom lugar para jantar, visto que no dia somente tínhamos tomado café da manhã e a fome cada vez maior até por conta das emoções do dia! 
     Pergunta aqui e ali logo na pracinha a duas quadras de distância encontramos o Luigi's Pizza, lugar bem aconchegante com deliciosas pizzas com massa fininha e crocante. Ainda encontramos ali dois estudantes brasileiros o Nicolas (RS) e o Bruno (MG) que participavam de intercâmbio na Universidade de Lima e aproveitavam seus momentos de folga para conhecer o país.Nas paredes do Luigi's você pode deixar seus recados em posts, é claro que deixamos o nosso também!

     Huaráz situada a 3.050 msnm entre a Cordilheira Branca (picos nevados)e a Cordilheira Negra (picos sem neve)  no Vale do Rio Santa tem uma população de aproximadamente 102.000 habitantes.
É a capital do Departamento de Ancash e ponto de apoio para quem quer conhecer esta região que concentra as mais altas montanhas do Peru. Possui intensa vida noturna, hotéis, pousadas, restaurantes variados bem como bancos, caixas automáticos (ATM's), lojas e agências de viagens e passeios com toda infraestrutura de turismo e esportes de aventura em montanha. 
     A culinária é muito variada oferecendo desde cozinha internacional a culinária andina peruana, Procure sempre se informar sobre o cardápio do dia e do momento, pois nós queríamos degustar o famoso Cuy  Asado (Porquinho da Índia) no jantar e tivemos de percorrer meia cidade até encontrá-lo. Nos disseram mais tarde que ele é tradicionalmente servido para o almoço. Em tempo; o tal Cuy até que é saboroso, pena que tem pouquíssima carne e rende muito pouco para a fome que tínhamos. Dica: Coma o cuy com a mão como se estivesse roendo uma asinha de frango. Não, ele não é uma ratazana apesar da aparência. Está mais perto de uma capivara miniatura. Arrematamos com uma lazanha como sobremesa! 
Degustando o famoso Cuy Asado peruano


     Apesar do pouco tempo disponível decidimos ficar dois dias em Huaráz, mas novamente nossa recomendação é dedicar pelo menos 7 a 8 dias para visitar as principais atrações. Já cedinho no dia seguinte rumamos ao norte para conhecer algumas das mais belas lagunas do Peru. Todo o trajeto de Huaráz até a cidade de Caraz segue pela Ruta PE 3N por aproximadamente 70 km sempre margeando o Rio Santa a esquerda e a Cordilheira Blanca a direita com vista dos imensos picos. O ponto mais alto no caminho é mesmo o Nevado Huascarán com seus imponentes 6.768 msnm sendo o pico mais alto do Peru e a quinta montanha mais alta das Américas. 

Nevado Huascarán (6.768 msnm)
     Todas as lagunas estão situadas a direita da rodovia e os acessos são por estradinhas de rípio que começam em pequenas cidadezinhas no vale e sobem muito até alcançar estas atrações tão procuradas. Optamos inicialmente pelas Lagunas Chinancocha (Laguna Fêmea)e Oroncocha (Laguna Macho) pois ainda poderíamos alcançar a famosa Laguna 69 dessa última. O ponto de acesso a elas se dá na cidade de Yungay a 25 km de Huaráz. Dali sobe-se mais 26 km até o Complexo Lagunar de Llanganuco a 3.850 msnm. Muita subida em piso bem ruim com pedras soltas e valetas em boa parte do percurso,pois partimos de 3.050 msnm para chegar em pouco mais de 4.000 msnm  em poucos quilômetros. Existe toda uma estrutura para o treking e também pode-se alugar pequenos botes para remar tranquilamente pela superfície dos lagos.
Entrada do Parque Huascarán- Sector Llanganuco

Lindíssimo vale que dá acesso às Lagunas Chinancocha e Oroncocha.
     Para entrar no Parque existe uma taxa de $10,00 soles por pessoa e pouco adiante do centro administrativo do parque já se vê a Laguna Chinanconcha. Diversas trilhas interpretativas  muito boas e fáceis por toda a margem com informações e distâncias a serem percorridas. Sempre vá com muita calma não esquecendo que você está a 4.000 metros de altitude e qualquer movimento brusco ou esforço maior para quem não está aclimatado vai te trazer problemas! 
     As águas da Cinancocha são de um verde-azulado lindo de se ver. Transparentes e limpíssimas águas provenientes do degelo das montanhas. A gente até perde a hora de tanto admirar a sua beleza. 
Seguindo adiante poucos quilômetros já é a Laguna de Oroncocha. Igualmente bela, é dali que se segue para a mais famosa das lagunas da região de Huaráz. A Laguna 69, sim, Sessenta e Nove tem esse nome pelo simples motivo de que quando todas as 120 lagunas catalogadas foram mapeadas ela era a única que não tinha nome anterior na língua Quéchua. Dessa forma ficou com seu nome de catálogo n° 69 conforme ordenamento.
   
Montanhas de mais de 5.000 metros de altitude

Laguna de Chinancocha

Trilhas/Senderos interpretativos.

   
     Se até aqui cabe algum arrependimento talvez nesse ponto ele se encaixe. Não fomos conhecer a Laguna 69!!  Vamos explicar: Tínhamos estipulado 2 dias para explorar a região, e só para a Laguna 69 precisaríamos um dia inteiro. Afinal são 3 horas e meia de caminhada em subida beeem íngreme para poder apreciar uma das vistas mais lindas que existem, segundo nos disseram. Mais o mesmo tanto para voltar até Cebollapampa, base do início e fim da aventura. Resumindo: Um dia inteiro para fazer o passeio bem feito e sem correrias.
     As fotos que tiramos das lagunas e dessa região de Llanganuco não fazem jus a verdade. A cor das águas contrastando com as montanhas, a sutil falta de fôlego causada pela altitude, o sol refletido no lago, tudo conspira para ficarmos hipnotizados admirando as belezas desse lugar mágico. Nem dá mais vontade de ir embora!

Precisa tocar para ver se é de verdade

Canal que liga as duas lagunas

Família feliz! Dá para ser diferente num lugar tão bonito!


Estradinha que liga as Lagunas de Chinancocha e Oroncocha a Cebollapapma

Em Cebollapampa. Sancho a esquerda, Mari no centro e Garça a direita

Com os novos amigos Carol e Glauco.
     Nosso erro imperdoável foi ter deixado algumas bagagens com agasalhos no hotel em Huaráz. Pois poderíamos ter acampado em Cebollapampa, conhecido a região por perto, dormido ali e no dia seguinte realizado o caminho até a Laguna 69. De qualquer modo assim temos mais um motivo para algum dia voltar para esse paraíso. Aqui também aconteceu um daqueles encontros que são verdadeiros acasos felizes na vida da gente. O casal Carol e Glauco (www.sanchotrip.com.br) vindos de São Paulo-Brasil(ele paulistano e ela catarinense), na sua viagem de volta ao mundo seguindo para o Equador e Colômbia. Logo já nos tornamos amigos e pelo ritmo da conversa poderíamos ficar horas contanto histórias que todos vivenciamos.
     Muito sucesso e tranquilidade aos novos amigos Carol e Glauco na empreitada que vai mudar as vidas deles. Ninguém volta de uma viagem igual ao dia que partiu!
 
     Como tínhamos separado esse dia para conhecer as lagoas perto de Huaráz e a Laguna 69 ficou fora desse plano, decidimos voltar a Ruta PE 3N que é a linha mestra para atingir todas as principais cidades e atrações. Claro que no mapa a distância de pouco mais de 25 km dão a impressão que em poucos minutos se vence a distância. Acontece que a estradinha é literalmente cheia de buracos, valetas e muita pedra solta, ainda mais que em descida íngreme as curvas são ainda mais traiçoeiras. Dessa forma levamos praticamente uma hora para chegar na rodovia e rapidamente rumamos sentido norte em direção a Caraz mais 15 km para poder conhecer a Laguna de Parón.
     Como ainda não tínhamos almoçado e a fome dava ares de sua graça, paramos a beira das lagunas para degustar nossas empanadas andinas adquiridas pela manhã em Huaráz. São momentos únicos numa viagem quando se está a milhares de quilômetros de casa e se tem o privilégio de poder estar vendo paisagens tão bonitas e degustar a culinária local. Mas existe agora um problema; Saímos do complexo Lagunar de Llanganuco já perto das 15h. Somados a mais duas horas para alcançar a Laguna de Parón e mais o mesmo tempo para voltar, ficaria inviável tanto pelo atropelo em chegar rapidamente quanto do quesito segurança.
Lagunas de Llanganuco

Empanadas degustadas dentro do carro por causa de uma chuva inesperada.
     Dessa forma na estrada mesmo decidimos abortar essa visita e fomos direto a Caraz. Caraz localiza-se na Cordilheira Negra e foi um dos berços do Império Chavin, muito antes do Império Inca.
     Caraz em quéchua ancashino significa  "Terra de Algaves"-planta da família das Suculentas com múltiplas finalidades principalmente como adoçante, bebidas fermentadas, papel, tecidos e principalmente na produção de tequila e mezcal (bebida ritualística) A cidade foi conquistada pelos Incas em 1460 pelo então Inca Tupac Yupanqui após dura resistência dos Chavin que apenas cedem quando  Contarhuacho a filha do governante Chavin Hanan Huaylas é tomada como esposa pelo Inca Huaya Capac. 
     Em 1856 a cidade foi legitimada por Simon Bolívar, e atualmente possui uma população de 15.000 aproximadamente. Situada a 2.256 msnm e a 442 km da capital Lima. 
     Em Caraz estão situadas outras montanhas acima dos 6 mil metros como o Pico Santa Cruz-6.259 msnm, o Pico Huandoy-6.395 msnm, e o Caraz I e Caraz II com 6.020 e 6.025 msnm respectivamente. Também existem sítios arqueológicos muito antigos como o Tumshukayko onde foram encontradas oficinas líticas e cerâmicas Chavin de aproximadamente 2.000 AC.
     O clima é temperado (15 a 25 ° C) e semi-arido com precipitações que não chegam a 500mm anuais.
Mari, Nati e o cãozinho em Caraz

Plaza de Armas de Caraz
   
Deu vontade de levar o doguezinho junto!
         Assim passeamos pela bonita cidadezinha e nos refestelamos com saborosos sorvetes na Plaza de Armas na companhia de um simpático cãozinho que queria sorvete e carinho. As vezes vale mais a pena conhecer uma cidade observando calmamente e conversando com seus moradores do que tentar visitar todas as atrações turísticas disponíveis. Caraz merece pelo menos 2 dias de visita só para visitar os pontos mais importantes na circunvizinhança.
     Já finzinho da tarde, caminho de volta a Huaráz pois amanhã queremos conhecer um dos principais monumentos arqueológicos do Peru, Chavin de Huantar. Caraz acabou sendo o ponto mais ao norte do Peru que atingimos nessa viagem, e descobrimos que temos muito ainda a aprender com a tão rica e vasta cultura andina peruana.
De Huaráz a Chavin de Huantar
     Acordamos cedo e antes de nos despedirmos de Huaráz com aquele nózinho na garganta pelas inúmeras atrações que não pudemos ver ainda fomos tomar um saboroso desajuno na Calle Toríbio de Luzuriaga pertinho da Plaza de Armas.  Garça estacionado e entramos numa panificadora para encomendar o café da manhã. Como sempre faço, fico atento a onde estacionamos o carro e poucos minutos depois fui verificar se estava tudo bem. De longe olho o Garça e vejo algo diferente na roda da frente. Vou conferir e descubro que é uma daquelas "ratoeiras" utilizadas pela polícia quando existe alguma irregularidade. A polícia que havia "prendido" nosso carro estava a uma quadra de distância e vou lá para perguntar o que houve. Me disseram que eu havia parado em local proibido. Nenhuma placa no local indicava proibição de estacionar e argumentei sobre isso. Sem como sustentar a alegação, convenci o policial a retirar a ratoeira depois de quase 10 minutos de debates. Cada coisa que acontece em uma viagem! Nem lembrei de tirar fotos!!

     Voltaremos um dia a Huaráz. Agora lentamente já é caminho de volta mas não antes de ir visitar uma das atrações mais importantes e interessantes dessa viagem. Nosso rumo é o Monumento Arqueológico de Chavin de Huantar pouco mais de 110 km ao sul. No caminho subindo a Cordilheira Negra deparamo-nos com a maravilhosa Laguna Querococha. A paisagem é tão linda que a gente aperta o passo para poder ver tudo, mas esquece que a altitude de quase 4.000m deve ser respeitada sob pena de perdermos o fôlego.
     A Laguna Querococha mede aproximadamente 2,5 km de comprimento por 1 km de largura. e proporciona a vista do Pico Pucaraju ao fundo e está praticamente na metade do caminho para Chavin de Huantar. Para Chavin, mais uns 50 km descendo parte da montanha visto que ela está a 3.180 msnm.

 

 

      Chavin de Huantar é atualmente um complexo arqueológico contendo edificações, pirâmides e praças. Localizado na encosta oriental da Cordilheira Blanca bem na confluência dos Rios Huacheksa e Mosna, formadores do Rio Marañón um dos principais afluentes do Rio Amazonas. Foi um dos mais importantes centros administrativos e religiosos da cultura Chavin durante os anos de 1500 a 300 AC. Suas estruturas de pedra são formadas por pedras truncadas e argamassa, diferenciando-se por esse motivo das tradicionais pedras polidas e encaixadas da posterior cultura incaica. Ocupando uma área de aproximadamente 15 hectares Chavin de Huantar progrediu muito na época por inovações tecnológicas nas técnicas de  agricultura principalmente em relação ao cultivo do milho.Especula-se que a sua decadência não tem relação com dominação militar de outras culturas mas sim pela própria estagnação cultural que aparentemente não progrediu no mesmo ritmo que outras culturas a ela contemporâneas.
     Conta a história que no ano de 1840 o campesino Timóteo Espinoza preparava um campo para a agricultura e desenterrou um monolito de pedra medindo 1,98m de altura por 0,74m de largura e 17 cm de espessura. Levou-o para sua casa para que servisse de mesa, deixando a parte entalhada com desenhos e inscrições para baixo. Esse acontecimento fez com que esse monolito tenha sobrevivido a outros que foram também desenterrados mas utilizados como material de construção. Anos mais tarde o viajante e pesquisador italiano Antônio Raimondi soube da existência dessa peça arqueológica e acabou levando-a para a capital Lima onde acabou sendo nomeada de Estela Raimondi no ano de 1873.
Ingresso a Chavin de Huantar ($ 10,00 soles por pessoa)

Alejandro Espinoza explicando sobre a Estela Raimondi(esta é uma réplica)

Um dos poços de entrada aos canais de água subterrâneos de Chavin

Escadaria que dava acesso ao Portal de Las Falconidas, Mari indicando esculturas na base da pedra

Templo Nuevo ou Castillo em forma de pirâmide com pedras truncadas que poderiam se movimentar durante terremotos sem desabarem.

Observando os buracos que permitiam a saída de ar dos canais de água.


Pirâmide cuja base mede 71 x 71 metros e altura aproximada de 20 a 25 metros

   
Vista da Plaza Central onde aconteciam as cerimônias em Chavin

Pedra entalhada com a figura de serpente-inteligência
      Para nós do Viagem Família até então apenas uma história muito interessante como muitas outras que ouvimos sobre as culturas pre-incaicas. O que nos deixou mesmo espantados e emocionados foi que o guia que nos contou essa história não era nada menos do que descendente direto do descobridor Timóteo Espinoza. Na nossa frente nos contando a história do seu povo ancestral estava o agora nosso novo amigo Alejandro Espinoza (Facebook-Alejandro Espinoza Noceda).
     Um passeio guiado que normalmente leva 1,5 horas, conosco transformou-se em uma pesquisa de quase 4 horas onde percorremos todos os cantos, labirintos, canais de irrigação subterrâneos, edificações onde inscrições, enigmas, passagens secretas e tudo mais que a arqueologia podem proporcionar aos mais interessados exploradores. Sentimo-nos verdadeiros Indiana Jones percorrendo cada cantinho de Chavin de Huantar. Verdadeira aula sobre a cultura Chavin nos foi dada pelo Alejandro Espinoza, e nós do Viagem Família agradecemos a tudo que nos foi ensinado. Obrigado amigo Alejandro!!! Muito pouco sabíamos sobre o tema e agora aprendemos que muito antes da cultura Inca, outras culturas muito desenvolvidas antecederam-na. O Peru é mesmo um país surpreendente. Chavin de Huantar é maravilhosamente linda com sua cultura, suas edificações e sua gente simpática e sábia que conhecemos nestas paisagens.
   
Entrando nos labirintos subterrâneos de Chavin de Huantar

Viagem Família debaixo da plaza de Chavin de Huantar, nos labirintos.


Com nosso amigo Alejandro na despedida, acima a única Cabeza Clava original de Chavin
     Depois de horas percorrendo o sítio de Chavin de Huantar chegou a hora da despedida. Emails e Facebooks trocados muitos abraços e sorrisos não disfarçavam aquela pequena lágrima da saudade e amizade que agora precisavam se separar mas deixando um sentimento muito bom em todos nós. Muito ainda temos a aprender e isso nos motiva cada vez mais nas nossas viagens. Até mais ver Huaráz e Chavin de Huantar. Saudades!!




     

sexta-feira, 31 de março de 2017

De Cusco a Huaráz - Cordilheira Blanca - Etapa 3

 
Iglesia de La Compañia de Jesus (1571)
      Depois de rever Cusco - "O Umbigo do Mundo" - dez anos após a primeira viagem para o Peru e conhecer mais sobre a região, hoje é dia de nos despedirmos e continuar rumo norte, ao nosso destino escolhido que é a Cordilheira Blanca.
     Cusco é linda e pode-se visitá-la diversas vezes que sempre aparecerão surpresas e belas paisagens e novidades a serem admiradas. Nossa recomendação é que se fique pelo menos de 7 a 10 dias na região para visitar e conhecer o básico dessa parte tão famosa do Peru.
     Em 2007 quando da nossa primeira visita ao país nossa meta era Cusco e Machu Picchu, e depois voltaríamos descendo para o sul, via Abancay, capital do Departamento de Apurimac. Desta vez nossa meta e conhecer o Peru mais ao norte.  O Peru está dividido em 25 regiões chamadas Departamentos e cada uma tem sua capital definida. De Cusco saímos no dia 5 de janeiro e percorremos pouco mais de 190 km pela Ruta 3 S. É uma estrada muito bonita, mas bastante sinuosa e estreita pela qual se cruza a Cordilheira de Vilcabamba e também o caudaloso Rio Apurimac.
Tomando café da manhã a beira da estrada entre Cusco e Abancay

Parada para admirar o Rio Apurimac

Rio Apurimac
     Fundada como Santiago de Abancay, em 1574, definitivamente não é uma cidade bonita. Localizada na encosta da montanha, às margens do Rio Mariño, afluente do Pachachaca, tem trânsito confuso o que só piora com o fato da Ruta 3 S passar bem pelo meio da cidade. Muita calma nessa hora com a confusão de pedestres, animais e veículos de todos os tipos e tamanhos que muitas vezes se arrastam para vencer as íngremes subidas e descidas dessa cidade. Muito lixo nas ruas e casas e ruas mal cuidadas passam uma impressão não muito agradável da cidade. Abancay possui aproximadamente 60.000 habitantes e está situada a 2.378 msnm, portanto quase 1.000 m abaixo do nível de Cusco.
Abancay situada no vale do Rio Mariño
     A economia da região é baseada na agricultura da cana de açúcar, frutas, alfafa, hortaliças e cereais. Também possui diversas instituições de ensino e universidades, sendo sede da Universidade Tecnológica de Los Andes. Vencida essa parte continuamos na  Ruta 3 S rumo a Ayacucho situada a 380 km de Abancay.

     Cabe agora explicar um pouco sobre os deslocamentos nos Andes e no Peru, especificamente. Qualquer que seja a dúvida em relação às distâncias a serem percorridas, sempre calcule-as em horas, e não em quilômetros.Somente para exemplificar. hoje saímos de Cusco cedo pela manhã, aproximadamente, 8h. Percorremos o dia todo uma distância de pouco mais de 400 km até a cidade de Chincheros, onde chegamos perto das 18h. Resumindo: 10 horas de estrada com bom asfalto para vencer a distância de 400 km!
Explicação: Variação intensa de altitudes de 1.800 msnm até 4.500 msnm. Incontáveis curvas muitas delas em formato de ferradura. Diversos povoados situados no percurso onde a vida da cidade ocorre da própria rodovia. Animais cruzando e calmamente caminhando pela rodovia é uma cena tão comum que no fim quase se torna hábito. Dessa forma, sempre recomendamos viajar de dia e em baixas velocidades de forma a apreciar a paisagem e não provocar acidentes.

     Chincheros, localizada a 225 km ao oeste de Abancay, será nosso local de pouso no dia de hoje. Não confundir a cidade de Chincheros com a localidade e ruínas de Chinchero, nos arredores de Cusco! Chincheros, com 51.000 habitantes - na sua maioria descendentes da tribo dos indios Chanka, tem como o Quéchua a língua mais ouvida nas suas ruas. Na avenida/rodovia que cruza a cidade encontram-se diversos hotéis e pousadinhas e fomos recepcionados gentilmente pelo Hector, no Hotel Ibeth, nossa segunda tentativa, visto que a primeira, um hotel do outro lado da rua estava aberto, mas ninguém apareceu para conversar. Confortavelmente instalados em dois quartos com água quente, internet e todas as mordomias por módicos $ 70,00 soles.
Agora, para saciar a fome de um dia inteiro na estrada vendo belas paisagens, nada como um jantar no Gourmet Restaurante com direito a pastelzinhos orientais -wantan de aperitivo e pratos individuais bem generosos regados a cerveza peruana custando pouco menos de $80,00 soles para 4 pessoas!
 

Cena comum nas estradinhas do Peru-Muitos animais na pista


Hospedagem muito boa e barata em Chincheros

   Apesar de historicamente nessa época do ano as chuvas serem mais frequentes e intensas nessa região, até aqui não fomos afetados por elas. Poucas e curtas precipitações tem ocorrido, o que para nós acaba sendo muito proveitoso. Assim também as temperaturas são agradáveis proporcionando certo conforto em caminhadas e deslocamentos rodoviários. Hoje o céu amanheceu novamente nublado e agora indo para o norte pelos caminhos de montanha na parcela oriental da Cordilheira dos Andes, conhecida como Cordilheira Huagaruncho, As altitudes oscilam sempre entre 3.000 a 4.000 msnm e já estamos bem aclimatados com essas altitudes, pois estamos aqui já há 4 dias.
     Depois de um desajuno feito à beira da estrada na cidadezinha de Orcos pouco mais de 155 km nos separam da próxima cidade mais importante, Ayacucho. São de 3 a 4 horas ainda pela Ruta 3S e chegamos perto do meio-dia. O legal de viajar pelo Peru é que para se achar qualquer coisa em uma cidade desconhecida basta rumar para a Plaza de Armas ou Praça Central, que existe em todas as cidades que visitamos.
     
Desajuno perto de Orcos entre Chincheros e Ayacucho

     
Cenas muitas vezes vistas nas estradas peruanas.

     Ayacucho mantém as mesmas características das demais cidades peruanas interioranas. Ruas estreitas e vielas ainda mais. Uma Plaza de Armas grande onde se pode obter todas as informações sobre atrações turísticas, alimentação e hospedagem. Passeamos a pé pelo centro da cidade e aproveitamos para nos abastecer de água mineral geladinha. Esse é também um fato a relatar: não é tão fácil adquirir água mineral gelada fora das cidades maiores. Em muitos lugarejos até havia água, mas sempre a temperatura ambiente (fria). Por mais que insistíssemos na mineral helada, sempre diziam que só havia esta, na temperatura ambiente. 
     Ayacucho (Rincão da Alma), nomeada assim por Simon Bolivar, em 1825, antes chamava-se Huamanga, tendo sido fundada em 25 de abril de 1540. O primeiro nome, entretanto, dado a cidade foi San Juan de La Frontera, batizado por Francisco Pizarro, em 29 de janeiro de 1539. Também é conhecida como la Ciudad de Las Iglesias, pela grande quantidade de templos e igrejas ali construídos principalmente na época colonial. Oficialmente são 33 igrejas e templos da época colonial. Possui aproximadamente 180.000 habitantes e muitas de suas construções utilizam a Piedra de Huamanga, ou alabastro, mineral que mescla a cor cinza e branca, tão característica daquele luga. Há registros de que há mais de 22.000 anos a região era habitada ainda nos Períodos Neolítico e Paleolítico conforme comprovaram as escavações realizadas pelo arqueólogo norte-americano Richard "Scotty" MacNeish em 1966.
     Também em períodos alternados, durante os anos 100 DC e 1400 DC, as culturas Warpa, Chanka e Wari antecederam aos Incas que passaram a dominar toda a região até o ano de 1532 quando os espanhóis chegaram, promovendo guerras que duraram até 1537. Ayacucho, diferente de muitas cidades pré-hispânicas, teve sua cultura formada não apenas pelos Quéchuas do império Inca, mas muito dos Aimarás, da cultura Wari. 
Chegando em Ayacucho-Peru

Palácio Municipal de Ayacucho na Plaza de Armas

Catedral Basílica de Santa Maria - Ayacucho (1672)



Templo de Santo Domingo (1548)

Rodando pelo centro de Ayacucho

Plaza de Armas ou Parque Sucre com estátua do Mariscal (Marechal) Antônio José de Sucre-1890
     Cidade visitada de forma rápida, merecendo um retorno com alguns dias de permanência pela sua importância histórica, pré-histórica, econômica e religiosa para o Peru e para a América do Sul. Voltamos a estrada continuando sempre em direção norte - nosso objetivo é chegar hoje a Huancayo, mais 260 km a frente.
     Daqui em diante a estrada ficou cada vez mais estreita, sinuosa e íngreme. Na sua maior parte permite o trânsito de apenas um veículo de cada vez, obrigando-nos a estratégia de observar atentamente o percurso mais a frente para ver se  vem algum carro ou caminhão ao nosso encontro. Esse procedimento é muito importante visto que a estrada tem trechos alternados de cascalho e asfalto não muito bom e principalmente pela impossibilidade de cruzarmos paralelamente os veículos em boa parte do trecho. O uso da buzina nas curvas fechadas sem visibilidade é sugerido e recomendado também pelas placas de sinalização espalhadas ao longo da rodovia. Inúmeras pontes existem nessa região, umas estreitas outras ainda mais, de concreto, madeira, ponte pênsil, cardápio completo.
Uma das inúmeras pontes no trajeto entre Ayacucho e Huancayo

A estrada é sempre assim, estreita e sinuosa.

Aguardando o caminhão cruzar o rio-logo será nossa vez.

Que tal?? Você encara??  E se vier outro carro no sentido contrário??

Atrás de um Tuc-tuc no caminho para a cidade de Huancayo

Problemas!!!  ônibus e caminhão cruzando na estreita rodovia

Cruzando com caminhão no alto dos Andes-Cordilheira Ocidental Norte
      É um trecho muito bonito a se percorrer durante o dia com bom clima e folga no tempo. Escarpas e despenhadeiros margeando os rios da região são uma constante exigindo muita atenção dos motoristas que trafegam por ali. Qualquer descuido é fatal com quedas de mais de 200m de altura.
     Novamente chegamos a nossa cidade escolhida-Huánuco,  para pouso já ao anoitecer. Apesar de termos percorrido pouco mais de 400 km, levamos para isso o dia todo viajando. Escolhemos o Hotel Del Rey bem no centro quase às 20h , e ali ao lado uma Polleria (restaurante que serve frango) acabou sendo a escolha natural para o jantar. Um dos motivos que nos levou a dormir em pousadas e hotéis nessa parte da viagem foi o baixo preço e acomodações razoáveis já que como segunda opção poderíamos acampar, mas o processo de montagem e desmontagem da barraca do Douglas e Nati seria mais demorado e incômodo e montamos um cronograma de percurso diário que precisamos manter razoavelmente pois temos pouco mais de 30 dias para terminar a viagem.
     As inúmeras atrações, paisagens e cidades até então desconhecidas para nós nos surpreenderam! Nossa recomendação é que viajantes e aventureiros dediquem pelo menos uma semana nessa região tão surpreendente e desconhecida para a grande maioria dos viajantes. Normalmente quem quer visitar a Cordilheira Blanca e a região do Pico Huascarán segue pela Rodovia Pan Americana mais ao leste margeando o Oceano Pacífico. Nós ao contrário decidimos pelo caminho mais difícil mas com certeza muito mais bonito. Nenhum arrependimento! Dá vontade de fazer novamente!
Região de Junin do Peru no caminho a Huánuco- 4300 msnm



Imensos rebanhos de lhamas na Cordilheira na região de Cerro de Pasco

Monumento em homenagem a Maca (tubérculo andino com propriedades medicinais) na cidade de Huayre-4.000 mnsm
      Completamente descansados e revigorados e desajuno tomado vamos hoje até Huánuco, mais 357 km ao norte. Esse trajeto todo é feito sempre em grandes altitudes ao redor dos 4.500 msnm com lindas vistas de montanhas e rios nos vales. Também se avistam grandes rebanhos de lhamas pastando tranquilamente nas encostas e montanhas.
     No caminho para Huánuco passamos pelo Departamento de Junin uma das regiões mais altas do Peru. Ali está localizado o Lago Junin, considerado o mais alto lago do mundo a 4.080 msnm
 Bem tranquila também foi a viagem nessa parte, visto que alcançamos a cidade de Huánuco no meio da tarde nos permitindo conhecer um pouco dela a pé.

Chegando a Huánuco

Confuso trânsito com muitos Tuc-Tucs

Cena comum nessa região do Peru

Iglesia de San Sebástian na Plaza de Huánuco
      Huánuco é a capital da província e do Departamento de Huánuco. Possui população de cerca de 130.000 habitantes com economia baseada na agricultura com muitas frutas e tubérculos. Também a criação de gado e atividades mineiras com destaque para a axtração de petróleo. Fundada em 1539 teve seu primeiro nome como La Muy Nobre y Leal Ciudad de Los Caballeros de León de Huánuco e teve grande importância militar no combate aos incas comandados por Illa Tupac, capitão do Imperador Manco Inca, e mais tarde na Guerra da Independência (século XVIII) e na Guerra contra o Chile-Guerra do Pacífico (1883). A capital está localizada a 1.800 msnm mas a província huanaqueña tem variações desde 250 até 6.632 msnm. 

Degustando um franguinho do KFC no Shopping de Huánuco
     Aproveitamos para visitar pela primeira vez na viagem um Shopping onde decidimos encarar um Fast Food para variar. Doug e Nati foram no KFC com tudo que tinham direito e Mari e eu(Marcos) fomos de combo de Sushi, Sashimi e camarão! Hehehehe, tudo bem eclético e sem remorsos e muita diversão e sabor!
Para dormir escolhemos o Hotel Venecia com atendimento muito bom bem no centro a um bom preço. Aqui cabe uma recomendação de atenção: Muitos hotéis na cidade são utilizados para... digamos... "encontros fortuitos" ou "por hora"! Apesar de serem hotéis normais de viajantes alguns possuem quartos de alta rotatividade, fato que descobrimos somente tarde da noite, o que gerou no dia seguinte muitas histórias engraçadas sobre o que se ouvia no "silêncio" da noite entre quatro paredes. De qualquer forma Huánuco foi apenas rota de passagem e no dia seguinte atingiríamos nosso ponto culminante de destino, a cidade de Huaráz.
 
Rodovia em direção a La Union- PE 3N

Nesse trecho muita terra e barro.

Uma paradinha para apreciar a paisagem e fotos

     De Huánuco a Huráz são 327 km pela Ruta 3N. Para variar levamos o dia inteiro para chegar! Aproximadamente 8 horas de muitas aventuras. Só para começar, a diferença das altitudes das duas cidades supera 2.000m. A rodovia é extremamente sinuosa e estreita alternando trechos de terra, pedra e um pouco de asfalto. Para dificultar ainda mais, cruza-se uma das partes mais altas da Cordilheira onde alcançamos hoje a altitude de 4.600 msnm.
Também as temperaturas tiveram grande amplitude hoje pois saímos de clima quase tropical amazônico com 30°C e alcançamos clima de alta montanha com - 4,0 °C!! Resumindo o trecho: Muitas emoções em um caminho com subidas e descidas que mais pareciam um tobogã.
     Tudo normal até que de repente sem nenhum aviso... ... neve!!! Muita neve!! Começou com pequenas gotas de chuva granizada que logo se transformaram em flocos de neve. Isso nos contorno oeste do limite do Parque Nacional de Huascarán perto do lugarejo chamado Pachapaque onde está uma bifurcação que dá acesso ao Paso de Huanshalla ou Yanashalla.  Por que essa informação é importante? Esclarecendo a todos que nesse trajeto que percorremos pelos Andes Ocidentais, há pouquíssimas placas informativas de cidades, direções a serem tomadas ou distâncias. Toda atenção deve ser redobrada pois um erro pode levar a horas perdidas em caminho errado ou até em casos extremos fatal!
Pequenas vilazinhas quase abandonadas à beira da estrada

Trecho semi-asfaltado no vale do Rio Marañon

Cachoeira quase no alto da Cordilheira Huayhuash
     No nosso caso só conseguimos avistar no meio da tempestade de neve uma placa indicando " PARQUE NACIONAL HUASCARÁN".  O detalhe é que a tal placa estava fora da rodovia já numa estradinha de terra a uns 30 m do asfalto e apontava para a direita-oeste, mesmo trajeto indicado no GPS. Acontece que a estrada de asfalto a Ruta PE 3N segue nesse lugar em sentido sul, contrariando as marcações iniciais apresentadas pelo GPS e Google que indicam atravessar o Parque no sentido leste oeste.
     Deixamos essa parte mais detalhada pois cruzar o Parque Huascarán em direção a cidade de Recuay do outro lado pode realmente ser maravilhoso e com vistas fantásticas e aproximadamente 65 km a menos.  Acontece que no nosso caso estávamos enfrentando uma nevasca com temperaturas inferiores a - 4,0°C , altitude superior a 4.600 msnm, perto das 17h onde não há horário de verão e não conhecíamos as condições da estrada que se apresentava extremamente enlameada, com gelo e visibilidade inferior a 15 metros.
Início da neve a 4.600 msnm perto do Parque Huascarán


     Paramos no entroncamento e debaixo de muita neve estudamos atenciosamente o mapa que tínhamos comprado em Cusco. O GPS indicava uma coisa, a única placa indicava o mesmo que o GPS mas nós sábiamente optamos por seguir a rodovia asfaltada para o sul que contornava o Parque via cidadezinha de Acquia e posteriormente reencontraria a Ruta PE 3N na cidade de Conococha. Não sabemos as consequências se tivéssemos optado por seguir na estradinha de rípio, mas com certeza não teriam sido muito boas! Nada como ter sempre um mapa físico atualizado nas mãos para tirar você de um aperto.
     Agora mais uns poucos quilômetros e chegamos sem mais surpresas já com noite escura na nossa cidade destino HUARÁZ!!
    Em poucos minutos encontramos o confortável Hotel Las Tejas com direito a internet, elevador, estacionamento coberto e melhor, bem no centro mas tranquilo, tudo a $ 90,00 soles para quatro pessoas.

Mapa com o trecho de Cusco a Huaráz