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quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Peru - Cordilheira Blanca - De Santa Catarina até o Acre - Etapa 1

 
  Mais um ano passa e mais uma expedição começa. Nosso roteiro, definido já no ano de 2014, acabou sendo adiado por questões logísticas, onde os outros integrantes do Viagem Família também participariam dessa nova aventura em terras Andinas.
     Fatores alheios conspiraram contra, e os Abutres ( Luiz, Eduwirges e Pedro) e os Quero-Queros (Alfredo, Cristiane, Mirele e Lucas) mais uma vez não puderam seguir com os Garças (Marcos, Marianne, Douglas e Natasha) nesta viagem!
      De Barra Velha-SC até a cidade de Assis Brasil-Ac no extremo oeste do Brasil, são mais de 4.200 km a serem percorridos antes de chegar à divisa com o Peru. Por que escolhemos este longínquo divisor se o nosso objetivo principal pode ser atingido por rotas mais curtas?

      Um dos nossos lemas é: " O pior caminho é nossa maior aventura". Nesse caso não é o pior caminho, mas com certeza é o mais longo. A opção de alcançar o Peru via Acre se deu por ainda não conhecermos essa parte distante do Brasil. Já tínhamos ido ao Peru no anos de 2007/2008 quando seguimos para lá via Corumbá e atravessando a Bolívia. (vide postagens de 2007 e 2008 no nosso blog)

      Após passarmos o Natal com a família e amigos partimos definitivamente rumo norte no dia 27 de dezembro de 2016. O caminho escolhido pelas estradas do Paraná foi o já tradicional, indo pelas BR 277 até a cidade de Ponta Grossa e BR 376 até a entrada da cidade de Reserva. Dali em diante, passando por Campo Mourão, Cianorte até Porto Camargo quase na divisa com o Mato Grosso do Sul.

 

    Uma parte desse trecho quem dirigiu o Garça na sua primeira viagem longa foi o Douglas, e eis que na divisa, cruzando a Ponte sobre o Rio Paraná, há um posto da Polícia Rodoviária Federal. Claro que o policial não iria deixar passar batido o Douglas sem nos parar e pedir documentos! Ato contínuo, mandou-o descer para realizar o teste do bafômetro! Ficou meio sem graça quando eu, Marcos, identifiquei-me como proprietário do veículo e no fim desejou-nos felicidades na viagem!
     Já em terras sul-mato-grossenses, Naviraí, Dourados, Campo Grande, Coxim e sempre pela BR 163 até Rondonópolis, no Mato Grosso. Mais uns poucos quilômetros alcançamos Cuiabá, capital do estado. Até Cuiabá já foram dois dias de viagem, sendo que a média de deslocamento diário ficou ao redor dos 1000 km/dia. Este trajeto foi o escolhido por não ter postos de pedágio e o deslocamento render bastante por não ser época de safra agrícola e nessa época existir pouco tráfego de caminhões.
      Em Cuiabá fomos extremamente bem recebidos pelos amigos Alda Elizabeth e Augusto Azevedo  que pacientemente nos aguardavam apesar de ser tarde da noite. Com uma deliciosa refeição e acomodações onde pudemos descansar muito bem, nos recuperando completamente. Não tem nada melhor do que chegar em um local e ser acolhido e sentir-se em casa. Obrigado novamente, amigos cuiabanos. Somos muito gratos a vocês.
      Saindo de Cuiabá agora pela BR 070 até Cáceres e pela BR 174 atravessando a Chapada dos Parecis até a cidade de Comodoro, às margens da BR.
   
Tranquilamente hospedados com os amigos em Cuiabá


Trecho da BR 364 entre Cacoal e Ji-Paraná-RO

   

Pastagens na Região Amazônica
       As retas a perder de vista nas estradas do Mato Grosso e Mato Grosso do Sul fazem par com as imensas planícies cultivadas com todo tipo de grãos no centro-oeste brasileiro. As pastagens com milhares de cabeças de gado também não passam desapercebidas por quem trafega na região. A explosão do agronegócio é evidente e evidente e contundente é também a supressão de mata nativa, antes referência e motivo de orgulho nacional.
       Cidades como Campo Grande, Cuiabá, Cáceres, Dourados e muitas outras apresentam um crescimento populacional enorme, acompanhados de centenas de carros e camionetas que circulam pela região. Vendo de forma pontual e isolada pode até parecer que a qualidade de vida dessa gente melhorou muito, mas fica ainda mais evidente a má distribuição da renda em diversos segmentos espalhados pelo país.
      As matas antes dominantes agora ficam restritas a bolsões precariamente preservados nos dando a impressão de ilhas de vida no meio à aridez proporcionada pelas monoculturas gigantescas destinadas principalmente a exportação para outros países. Mesmo as sedes das fazendas são protegidas por árvores, na maior parte eucaliptos, plantadas ao seu redor para proteger as casas e seus ocupantes das intempéries como ventos e chuvas. Fica sempre a reflexão se a escolha feita pelos que ocupam e habitam a região é correta ou não. As escolhas foram feitas e as consequências delas teremos que absorver, sejam para o bem ou para o mal.

Chuva, à esquerda, chegando -Cáceres-MT
       Decidimos pernoitar nas nossas barracas mesmo, nos fundos de um posto de combustíveis que possuía um restaurante bom e barato, mas principalmente um ótimo banheiro com chuveiros limpos e tudo muito bem organizado. Ter uma boa barraca de teto como a nossa e mesmo barracas normais permite uma grande opção de locais de pouso para descanso. A dica é ficar longe de grandes centros urbanos onde a natural tendência a insegurança prevalecem. Existem muitos postos de combustíveis no Brasil com boa estrutura para viajantes e com relativa segurança. Basta saber escolher e se informar nos locais.

Acampamento à beira da estrada no município de Comodoro-MT


       Acordar cedinho de manhã com as centenas de papagaios e pássaros nas árvores é bem diferente. Até a pequena chuva que caiu pela noite foi boa para dar uma refrescada no intenso calor da região. Tomar café da manhã com leite "de verdade" em uma padaria ali perto também foi revigorante visto que isso está cada vez mais raro nas nossas cidades.
       Logo chegamos a Rondônia e para nossa surpresa ainda não vimos a Floresta Amazônica. Pelo menos até onde a vista alcança margeando as estradas só campos e pastagens. Claro que já tivemos os primeiros contatos com a vida "selvagem " da região e aproveitamos para registrar esses encontros em diversas fotos.


"Selvagem ao Extremo"

Raro exemplar de Macaco "Perdidus"

Com a amiga Anta




  















      Rondônia, antes de homenagear o Marechal Cândido Mariano da Silva Rondon, chamava-se de Território Federal do Guaporé em virtude do Rio Guaporé que separa o Brasil da Bolívia naquela região. O então território desenvolveu-se a partir da assinatura do Tratado de Petrópolis que criou o estado do Acre, seu vizinho, e nesse mesmo tratado obrigava-se a construção de uma ferrovia para escoar a produção de borracha e madeira dessa parte do país. Assim nasceu a lendária Ferrovia Madeira-Mamoré com 366 km de extensão ligando a cidade de Santo Antônio da Madeira no Mato Grosso até a confluência dos Rios Beni e Mamoré, ambos divisores de terras bolivianas e brasileiras.
      Apenas no ano de 1982 quando foi transformado em estado, recebeu a nomenclatura de Rondônia vindo a hoje ser o 3º estado mais rico da Região Norte em parte pela exploração da borracha, castanha, couros e peles de animais, mas principalmente pelas jazidas de cassiterita (estanho) e diamantes. A Reserva Roosevelt ( de propriedade dos índios Cinta-Larga) de aproximadamente 2,7 milhões de hectares localizada no município de Espigão do Oeste, revelou que a produção pode chegar a 1 milhão de quilates de diamantes por ano, podendo ser a maior mina desse mineral no mundo.
As 3 Caixas D'Água - Trazidas dos Estados Unidos e montadas entre 1910 e 1912 - Memorial Histórico Madeira/Mamoré

Mercado de Artesanato de Porto Velho-RO

Admirando o Rio Madeira e o estado do Amazonas na outra margem

Museu Ferroviário Madeira/Mamoré
   
   
       De Comodoro, no Mato Grosso,  até a capital de Rondônia, Porto Velho, são 710 km pela BR 364 e como chegamos à capital do estado já ao anoitecer decidimos pernoitar no Hotel O Compadre. Às vezes um pouco de conforto é bom, ainda mais levando em conta que acampar debaixo de uma chuvarada nem sempre é confortável.
      Porto Velho tem diversas atrações que merecem ser visitadas, mas com certeza o Porto Fluvial do Rio Madeira é a mais conhecida. Do outro lado do rio já é o estado do Amazonas que nessa região só é acessível por vias fluviais. O Museu Ferroviário da Estrada de Ferro Madeira/ Mamoré, o Mercado de Artesanato e as famosas Três Caixas D'Água foram devidamente conhecidas bem como igrejas, museus e a cidade como um todo que atualmente conta com pouco mais de 511.000 habitantes.


Travessia do Rio Madeira


Olha o Garça saindo da balsa pilotado pelo Douglas

Eternas obras da ponte sobre o Rio Madeira-RO
      Nossa ansiedade de chegar logo ao Peru não é menor do que a curiosidade de chegar ao Acre. Depois de passear pela capital rondoniense debaixo de um sufocante calor tropical na casa dos 40°C voltamos à estrada em direção a outra capital, dessa vez do Acre. Hoje é o último dia do ano de 2016 e decidimos fazer a nossa ceia de Ano Novo em algum hotel onde pernoitaremos.
      Hoje teremos bem menos distância a percorrer: 511 km separam essas duas capitais de forma que além de conhecer bem Porto Velho ainda nos sobrará um tempinho para passear e achar um hotel neste dia 31 de dezembro.  Cruzamos o Rio Madeira a bordo de uma balsa ao custo de R$ 25,00 e ficamos a admirar a construção da ponte que deveria estar pronta há muitos anos se arrastando. Pelo andar da obra, mais alguns irão passar até que essa importante ligação esteja concluída, coisas do Brasil que não funciona!! Até a divisa do Acre são aproximadamente  400 km e para nossa surpresa, o ACRE EXISTE!!!!  Claro que sabíamos disso, mas a piada recorrente no sul do país é que pela distância esse estado não existiria hehehehehehe...
   

     
       O Acre é a divisa mais ocidental do Brasil e sua história começa já antes do Século XIX quando no ano de 1867 o Brasil reconheceu que aquela região, conhecida posteriormente como Acre, pertencia a Bolívia, fato ratificado no Acordo de Ayacucho, celebrado durante a Guerra do Paraguai-1864/1870. Apesar disso, a Bolívia nunca ocupou a região, principalmente pela dificuldade em se alcançar essas terras que tinham seu acesso mais fácil via Bacia Amazônica. Em virtude da grande quantidade de seringueiras na região, colonizadores brasileiros começaram a afluir nos idos de 1850 fato só descoberto pelos bolivianos perto dos anos 1890.
     O Acre foi até arrendado pelos bolivianos a um grupo de investidores norte-americanos e ingleses no ano de 1901, pelo então presidente boliviano general José Manuel Pando, conferindo a este grupo total controle do território, inclusive militarmente. Apenas em 17 de novembro de 1903, no governo do então presidente do Brasil, Rodrigues Alves, foi assinado o Tratado de Petrópolis pelo Embaixador Barão do Rio Branco e pelo Diplomata e Governador gaúcho Joaquim Francisco Assis Brasil, tornando o Acre território brasileiro. Em novembro de 1904, por decreto presidencial, o território foi anexado ao Brasil passando a categoria de estado apenas em 15 de junho de 1962. 

      Poucos quilômetros nos separavam da capital Rio Branco e optamos por ficar num hotel, pois além da chuva fina queríamos fazer uma ceia com um pouco mais de conforto. De qualquer forma sempre que ficamos em hotéis ou pousadas, escolhemos o melhor custo-benefício para o momento. A média de preços para 4 pessoas fica em torno de R$ 150,00. Nas cidades grandes, como capitais, os preços cobrados em geral são mais elevados, o que demanda um pouco de paciência e negociação antes de encontrarmos algum adequado. Hotel escolhido, decidimos então comprar mais alguns itens e nos acomodamos.


      Como havia poucas pessoas no hotel, pudemos utilizar com exclusividade o salão de refeições para degustarmos o menu de Ano Novo: franguinho assado, farofa, panetone, frutas frescas, nozes, salada e tudo acompanhado de uma cervejinha gelada e suco. Claro que não faltou o tradicional brinde de Ano Novo feito com espumante comprado na última viagem ao nordeste brasileiro, produzido no Vale do Rio São Francisco, região de Petrolina-Pernambuco.
FELIZ  2017!!!!!

Ceia de Ano Novo, no Acre

VIVA 2017!!!!


Espumante que viajou conosco desde Pernambuco ao sul do Brasil e agora no Acre
       Primeiro dia do ano!  Ruas vazias, quase tudo fechado, bastante sujeira nas ruas pela comemoração da virada do ano, mas bom para passear e conhecer um pouco da capital acriana.
Rio Branco. Localizada às margens do Rio Acre possui atualmente uma população de 377.057 habitantes, segundo o censo de 2016. Colonizada inicialmente por nordestinos recebeu afluência de turcos, portugueses e libaneses. Fundada em 1882 a partir de um seringal de propriedade de um cearense chamado Neutel Maia, somente passou a se chamar "Vila Rio Branco" em agosto de 1904, homenageando o então chanceler Barão do Rio Branco pelo seu empenho na assinatura do Tratado de Petrópolis que culminou na criação do estado do Acre. Historicamente a economia da região sempre foi voltada ao extrativismo, com ênfase à exploração da borracha. Hoje o principal produto extraído é a madeira, seguidos da castanha-do-pará, óleo de copaíba e o conhecido acaí.

      O Rio Acre que corta a cidade é navegável no período das cheias (de janeiro a maio) podendo ser percorrido até a cidade de Cobija, na Bolívia, com extensão de aproximadamente 320 km. Como ainda estamos no período da seca, o nível das águas está bem baixo, inclusive dificultando o abastecimento de água para a população local. Encontramos às suas margens, no centro de Rio Branco, um bonito casario colonial e aproveitei para conversar um pouco com o poeta e trovador Juvenal Antunes que ali estava.
Praça da Revolução e Palácio Rio Branco

Conversando com o poeta e trovador Juvenal Antunes (1883-1941)

Casario colonial em Rio Branco-AC - Gameleira: local de fundação da cidade

Atravessando o Rio Acre pela Ponte Juscelino Kubitschek - Primeira ponte metálica do Acre-1957

Canal da Maternidade do Rio Acre - Rio Branco (AC)
       Mais umas voltas pela cidade e logo continuamos a viagem em direção à divisa com o Peru, sendo que o destino é a cidade de Assis Brasil, já na divisa - pouco mais de 330 km temos que percorrer ainda em território brasileiro. O cenário se repete, poucas florestas e muio campo de pastagens com as protegidas castanheiras se destacando na paisagem. Claro que surpresas acontecem e dessa vez encontramos uma cobra jiboia ao lado do asfalto. Provavelmente ela foi levemente atingida por algum veículo, mas estava viva e bem ativa quando eu suavemente a retirei da pista colocando-a no capim fora do alcance dos veículos. Foi a primeira vez que tive o privilégio de ter o contato com um animal dessa espécie e fiquei feliz em ter podido ajudar nesse momento.


 
Nossa amiga, a Jiboia
   
video

       Chegamos então a Assis Brasil, última cidade brasileira antes da fronteira. Abastecemos e fomos fazer os trâmites aduaneiros ainda um pouco apreensivos, pois não sabíamos se estariam funcionando hoje, primeiro dia do ano e feriado. Tudo normal e funcionando e felizes por não ter nenhum movimento, rapidamente resolvemos a burocracia fronteiriça, fizemos o câmbio (R$1,00 = $0,92) e adquirimos alguns Soles (moeda peruana) e pé na estrada. Interessante observar que foi a primeira vez que a Polícia Federal Brasileira carimbou os nossos passaportes para sairmos do Brasil. Das inúmeras viagens que já fizemos pela América do Sul esta foi a primeira vez que aconteceu. Tchau, Brasil, agora serão muitos dias pelo Peru!

Seguindo pela Estrada do Pacífico, quase chegando ao Peru

Ultimo posto de combustíveis em Assis Brasil-AC

Nosso adesivo "Viagem Família" devidamente colado na fronteira Brasil/Peru

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