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segunda-feira, 1 de setembro de 2025

Expedição Transamazônica 9 - Santarém, Alter do Chão e Fordlândia - PARTE 2

Anoitecer em Pindobal, Belterra, às margens do Rio Tapajós

Para se explorar o estado do Pará é necessário tempo e disposição para percorrer grandes distâncias e estradas desafiadoras!

Deixamos a BR 230 por alguns dias e desviamos nosso destino ao Norte. Nossa primeira parada foi em Fordlândia!

Deixando a BR 163 e seguindo por estrada de chão, ruim, até Fordlândia

Fordlândia


“I have a dream”, disse Henry Ford quando idealizou uma fábrica de automóveis em plena Floresta Amazônica, nos anos 1920!! A ideia era expandir as atividades, tornando Fordlândia não apenas fornecedor de látex como também introduzir a tecnologia de produção automobilística para o coração do Brasil.

A partir de uma concessão assinada em 1927, ergueu-se uma localidade com boa infraestrutura, com luz elétrica, praças, cinema, hospital, escola, piscinas, campos de golfe e casas bem construídas, no estilo norte-americano.

O Ciclo da Borracha (1879-1912) impulsionou a fundação da cidade, porém (segundo uns) o plantio errôneo das seringueiras, muito próximas umas das outras, provocou a disseminação fácil da praga que dizimou a plantação. [Outros afirmam que o micro-organismo do gênero Microcyclos foi introduzido de maneira criminosa, desta forma provocando a falência do projeto.]

Igreja Matriz do Sagrado Coração de Jesus (1947): construída por frades norte-americanos  

"Galpão da Serraria" - Ruínas dos barracões onde funcionava a Ford Motors - hoje o espaço está sendo usado como depósito da prefeitura de Aveiro



Toda a maquinaria está lá, esperando para ser limpa e restaurada - imaginem que Museu fantástico!!!


Veículo utilizado para transporte interno

Outro fator que interferiu no sucesso da indústria foi que os trabalhadores que foram contratados para trabalhar lá não se adaptaram às regras impostas, que contemplavam: uso obrigatório de crachás, calçados e calças compridas, luvas, horários definidos, e até a alimentação foi alvo de revolta! No refeitório era servido hamburgueres e os trabalhadores logo se cansaram da rotina gastronômica oferecida, organizando a Revolta do Quebra-panelas. Acordos foram feitos sobre o tipo de comida que seria servida para mantê-los mais produtivos e felizes!




Ainda assim, o desastre foi eminente e em 1945 o neto de Henry Ford, Henry Ford II assumiu o comando da empresa e decidiu encerrar o projeto de plantação de seringueiras no Brasil. Com a descoberta e novas tecnologias que usavam o petróleo na fabricação de pneus, e o preço do látex da Malásia muito mais atraente no mercado internacional, Fordlândia virou uma “cidade-fantasma”, onde ainda moram 2000 pessoas e que continuam subordinadas ao município de Aveiro, localizado do outro lado do Rio Tapajós.



Após o fechamento da fábrica, o Governo brasileiro comprou o acervo da Companhia Ford  Industrial do Brasil (U$ 250 000), efetuando o pagamento das indenizações trabalhistas, recebendo 6 escolas (em Fordlândia e Belterra), 2 hospitais, estações de captação, tratamento e distribuição de água, usina de força, mais de 70km de estradas, 2 portos fluviais, estação de rádio e telefonia, 2000 casas, 30 galpões, 2 unidades de beneficiamento do látex, 1,9 milhão de seringueiras plantadas em Fordlândia e mais 3,2 milhões em Belterra. (detalhe: muita desta estrutura continua sendo usada até os dias atuais)

Caixa d'água de Fordlândia - é um marco histórico construído pela Ford Motors entre 1927 e 1928. Em uso até hoje

Escola Municipal construída na época da fundação e em funcionamento até hoje


Funcionou como Hospital, mas era a Casa Paroquial


"Porto" - Mais um banho no Tapajós

Acampando debaixo das árvores em Fordlândia. 

Observação: para  visitar Fordlândia também é possível chegar de barco, via Santarém, numa subida de 5h ou de Itaituba, descendo o rio, também umas 5h. A cidade de Aveiro só é alcançada por barco. Pode-se pegar a "condução" aqui, em Fordlândia, ou em Itaituba, ou em Santarém 

Nosso passeio pela cidade foi bacana e interessante. Após explorarmos tudo e tomarmos muitos banhos no Rio Tapajós, seguimos até Belterra, cidade vizinha de Aveiro/Fordlândia e Alter do Chão/Santarém.

Praia do Pindobal + Alter do Chão

Mirante em Pindobal

Sabe aqueles tiros certeiros que se dão, às vezes??? Então, nosso destino era a famosa praia de Alter do Chão, distrito de Santarém, porém pelo adiantado da hora resolvemos entrar em Belterra e buscar um local às margens do rio para pernoite. Vi no mapa a Praia do Pindobal e fomos para lá!!! 



Que espetáculo!!! Ainda não tão famosa e badalada com a vizinha Alter do Chão, Pindobal possui uma infraestrutura excelente, com bares e restaurantes na beira do rio, tudo muito limpo, bonito e organizado.

Estacionamento do Restaurante Katryne

Conversamos com a Ellen, do Restaurante Katryne, e estacionamos/acampamos no seu estacionamento, aproveitando para tomar umas cervejas geladas e comer petiscos de arraia (muito comum por aqui) e camarão, curtindo o lindo e famosíssimo pôr de sol!!!

Tudo perfeito!!

Felicidade é quase nada: petisco de arraia, camarão e cerveja gelada!!!

A famosa Alter do Chão, distrito de Santarém, foi passeio de um dia, observando a orla ainda bastante alta!!! A vila é charmosa e bem badalada! Estavam nos últimos preparativos para a festa do Çairé, que iria acontecer em poucos dias (no mês de outubro). 


Paróquia N. Sra. da Saúde (1896), restaurada em 2011



"Ilha do Amor"

HISTÓRIA 

O festival do Çairé, em Alter, é uma manifestação que mistura elementos profanos e religiosos. O primeiro sairé (ou çairé) que se tem notícia foi organizado pelo Padre João Maria Gorzoni, no séc XVII, na missão localizada às margens do Rio Tapajós, onde viviam os indígenas Boraris. Semelhantemente ao Festival de Parintins, onde existe a disputa dos bois Caprichoso e Garantido, aqui a disputa é entre os Botos Tucuxi e Boto Cor-de-Rosa.

Carro alegórico do Boto Tucuxi

Este ritual envolve a trama do folclórico boto que engravidou a Cunhantã-iborari, filha do Tuxaua, e é morto pelo seu pai. O pajé, a pedido do Tuxaua, ressuscita o boto, pois sua morte havia trazido a fúria dos maus espírito para a região. 

[Aqui abro novamente um parênteses, pois a lenda do boto tão apregoada e romantizada pelo povo do Norte infelizmente encobre um crime cometido há anos, contra meninas-moças que são vilipendiadas por membros da própria família e para justificar a gravidez, dizem ter sido o "boto" que se transformou num lindo e charmoso homem que a encantou! As mães são cúmplices e acobertam os criminosos - muitas delas também sofreram o mesmo tratamento e acabam por achar que ser abusada por um parente é normal!] 

No dia seguinte fomos a Santarém, conhecer a cidade e verificar a possibilidade de irmos até Alenquer, na Ilha do Marajó.

Santarém

"Mocorongo" é o gentílico carinhoso e popular dado a quem nasce ou vive em Santarém

A terceira maior cidade do estado do Pará, com uma população estimada de 360mil habitantes é conhecida por “Pérola do Tapajós”. Aqui também se observa o Encontro das Águas, onde as águas azul-esverdeadas do Tapajós se encontram com o barrento Rio Amazonas.

Fundada em 1661, é uma das cidades mais antigas da região Amazônica. Recebeu o nome em homenagem à cidade homônima portuguesa, famosa pelos seus vinhos. O nome Santarém vem de Santa Irene, mártir cristã.

Observando o "encontro das águas": ao fundo, o Amazonas barrento, mais próximo da margem, o Tapajós, verde/azul cristalino


Nossa primeira parada foi no Terminal Hidroviário, onde fomos nos informar sobre a travessia para Alenquer (Ilha do Marajó). A maneira mais econômica e viável é pegar a balsa para Santana do Tacaré – 2 a 2,5h distante – e de lá seguir 130km por asfalto até Alenquer. Custo: R$ 138,00 a R$168,00, aproximadamente U$27 a U$33

Outra maneira de fazer a travessia é via ferryboat e demora 5h, pois vai direto à Alenquer. Custo: R$ 200,00 (com motorista) e + R$ 55,00 (passageiro) = U$50

Instalações do Terminal Hidroviário


Como nossa amiga Raquel, que é médica em Alenquer, está viajando, acabamos deixando esta “pernada” para uma próxima vez.

Museu João Fona- Construído entre 1853 e 1868 pelo engenheiro Marcos Pereira

No Museu João Fona (Centro Cultural), bem na orla de Santarém, o Rildo nos acompanhou na visita, contando histórias e particularidades da cidade e seu desenvolvimento, além de dicas do que ver e aproveitar na cidade. 

Sala da Intendência - piso: pau amarelo e acapu; pinturas em afresco: João Fona

Pátio interno e, no alto, o símbolo do Çairé, com as 3 cruzes

Artesanato típico, com pinturas das cuias

O museu possui um acervo bacana, com destaque para a rica cerâmica da cultura tapajônica, artefatos arqueológicos, pinacoteca com artistas locais, mobiliário antigo, documentos e fotos históricas da cidade. Aqui, neste prédio, funcionou originalmente a Intendência Municipal, a Câmara Municipal e Cadeia Pública e até Prefeitura de Santarém.

Bate papo na sala do Imperador


Vaso de Gargalo - cerâmica tapajônica

Agradecimento especial ao Rildo, que foi mais que um guia!

Na Orla de Santarém, visitamos o porto e a loja de artesanato, onde adquirimos algumas coisinhas! O artesanato por aqui é lindo e dá vontade e comprar tudo!!







Percorremos a via pedonal e chegamos à Catedral de N. Sra. da Conceição, que é o prédio mais antigo da cidade. Sua construção se iniciou em 1761, no local onde havia a primeira capela da cidade, e foi inaugurada em 1819. Curiosamente, o prédio foi construído sobre um antigo cemitério de índios Tupaiu.

Catedral de N. Sra. da Conceição, em Santarém




Suporte para água benta

Subimos até a parte alta da cidade, onde foi iniciada a construção de um antigo forte, nunca concluído. Só restam 4 canhões lá em cima. 

Nem ruínas restaram do "forte" que começou a ser erguido no alto da colina



Em nossa passagem pela cidade também aproveitamos para lavar roupa.

PA 370 – um tapete

Deixamos Santarém para trás e seguimos no novo e maravilhoso asfalto da PA 370, uma rota cênica, até Uruará, onde reencontramos a BR230 – Transamazônica.



Ali estacionamos debaixo de uma área coberta, anexa ao posto, novinho, com banheiros bons e limpos, onde passamos a noite. Na parte superior do posto de combustíveis existe um restaurante bem bacana, R$ 69,90 o kg (=U$13,25), com comida bem servida e variada. Aproveitamos para tomar aquele chopp gelado antes de preparamos nosso almojanta.


URUARÁ

Localizada no Sudoeste do Pará e pertencente à microrregião de Altamira, Uruará foi fundada em 1988 e conta com, aproximadamente, 46mil habitantes. A base da economia local é o agronegócio, onde além do cacau, se produz também o urucum e a pimenta do reino, além do gado de corte e leiteiro (ultrapassando as 220mil cabeças de gado). Também aqui a presença das madeireiras é grande e a extração da castanha também influencia na economia local.

CURIOSIDADE: Percorremos o Pará de ponta a ponta, porém não conseguimos comprar a castanha em nenhum local... tudo que é colhido vai pra exportação e o que fica no mercado interno têm preços aviltantes! Se soubéssemos dessa realidade antes, teríamos adquirido o fruto em Itaúba, no MT, onde a venda da castanha in natura é feita na beira da estrada (BR 163).


No dia seguinte nossa aventura pela BR 230 continuou...